24 Novembro, 2009

William Shakespeare (tradução de Vasco Graça Moura)

De meu pensar és vida e alimento,
como brandos chuviscos para o chão
e pela paz que me és, qual avarento
a defender seus bens, eu luto então.
Ora ledo da posse, temo o perigo
de em breve a idade o seu ouro perder,
ora conto ficar a sós contigo,
melhor, de ver-me o mundo tal prazer.
Cheio às vezes da festa de te olhar
e logo de um olhar tendo mais fome,
sem ter ou perseguir outro manjar
salvo o que vem de ti ou eu te tome.

E jejuo e me enfarto a cada hora,
ou de tudo glutão, ou tudo fora.

19 Novembro, 2009

Albert Camus (trecho de A PESTE - tradução de Valerie Rumjanek)

Em meio aos gritos que redobravam de força e de duração, que repercutiam longamente junto do terraço, à medida que as chuvas multicores se elevavam mais numerosas no céu, o doutor Rieux decidiu, então, redigir esta narrativa, que termina aqui, para não ser daqueles que se calam, para depor a favor destas vítimas da peste, para deixar ao menos uma lembrança da injustiça e da violência que lhes tinham sido feitas e para dizer simplesmente o que se aprende no meio dos flagelos: que há nos homens mais coisas a admirar a desprezar.

16 Novembro, 2009

Paulo Henriques Britto (dos Sonetos Assimétricos, de MACAU)

Em torno de uma mesa sem toalha
a discutir a difícil questão:

por que todo argumento sempre encalha
quando se tenta explicar a certeza
que inspira o que dispensa explicação.

Constrangimento geral nesta mesa.
Alguém pigarreia. Ninguém se atreve a
dizer palavra que pareça previa-
mente pensada pra causar surpresa.

Quem sabe a coisa não tem solução.
Não será este silêncio, talvez, a
resposta final? Mas algó atrapalha

o silêncio, impede a concentração
total. Talvez a falta de toalha.

10 Novembro, 2009

POESIA TODO DIA

FERREIRA GULLAR (trecho do POEMA SUJO)


Muitos
muitos dias há num dia só
porque as coisas mesmas
os compõem
com sua carne (ou ferro
que nome tenha essa
matéria-tempo
suja ou
não)
os compõem
nos silêncios aparentes ou grossos
como colchas de flanela
ou água vertiginosamente imóvel
como
na quinta dos Medeiros, no poço
da quinta

coberto pela sombra quase pânica
das árvores
de galhos que subiam mudos
como enigmas
tudo parado
feito uma noite verde ou vegetal
e de água
muito embora em cima das árvores
por cima
lá no alto
resvalando seu costado luminoso nas folhas
passasse o dia (o século
XX)
e era dia
como era dia aquele
dia
na sala de nossa casa
a mesa com a toalha as cadeiras o
assoalho muito usado
e o riso claro de Lucinha se embalando na rede
com a morte já misturada
na garganta
sem que ninguém soubesse
- e não importa -
que eu debruçado no parapeito do alpendre
via a terra preta do quintal
e a galinha ciscando e bicando
uma barata entre plantas
e neste caso um dia-dois
o de dentro e o de fora
da sala
um às minhas costas o outro
diante dos olhos
vazando um no outro
através de meu corpo
dias que se vazam agora ambos em pleno coração
de Buenos Aires
às quatro horas desta tarde
de 22 de maio de 1975
trinta anos depois

08 Novembro, 2009

POESIA TODO DIA

OS LUSÍADAS - CANTO 1 (versos finais)

Luís de Camões

Oh! Grandes e gravíssimos perigos,
Oh! Caminho de vida nunca certo,
Que aonde a gente põe sua esperança
Tenha a vida tão pouca segurança!

No mar tanta tormenta e tanto dano,
Tantas vezes a morte apercebida;
Na terra tanta guerra, tanto engano,
Tantas necessidade aborrecida!
Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

03 Novembro, 2009

POESIA TODO DIA

POEMA DE FINADOS

Manuel Bandeira

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

01 Fevereiro, 2009

RAUL NÃO MORREU

Biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiicho..... Allan Kardec estava certo!!!!! Agora eu acredito em reencarnação.



Achei a foto aí numa página do orkut. Desconheço o autor. O nome do personagem? Deve ser Rauzito!!!!

31 Janeiro, 2009

PROVÉRBIOS ERRADOS

Machado de Assis em Esaú e Jacó:

"Sem as suas predições grandiosas, a esmola de Natividade seria mínima ou nenhuma, e o gesto do corredor não se daria por falta de nota. 'A ocasião faz o ladrão', conclui o meu correspondente.

(...) Além disso, o provérbio pode estar errado. Uma das afirmações de Aires, que também gostava de estudar adágios, é que esse não estava certo.

- Não é a ocasião que faz o ladrão, dizia ele a alguém; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: 'A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito'."

O Bruxo do Cosme Velho adorava esse estilo proverbial. Colocou na boca do Conselheiro Aires essa genial revisão do dito popular. Eu, como o Aires, também sou um estudioso dos adágios. E não estou sozinho, posto que de tempos em tempos encontro alguns companheiro de viagem que o fazem, talvez não tão genialmente como Machado de Assis e seu Aires, é verdade, mas com certo humor.

O fato é que vários provérbios estão errados ou podem ser adaptados para novas situações.

O que segue abaixo é coisa que cito de memória, atribuo-os a quem mos passou. As injustiças, nesse caso, devem ser perdoadas.



EM TERRA DE CEGO, QUEM TEM UM OLHO É CICLOPE
(Prof. Adalberto - puxa, não sei o sobrenome! É o Adalberto que dá aulas de português no São Francisco e na UEMG, quem souber)

DEUS AJUDA QUEM SEU MADRUGA
(diOli)

ÁGUA MOLE EM PEDRA DURA ESPIRRA NA GENTE
(esse é meuzinho mesmo)

DE CAVALO BANGUELA NÃO SE OLHAM OS DENTES
(a obviedade pode ter lá o seu humor. meuzinho também)

Se um dos meus três leitores souber de algum, que mande. Ou que crie os seus, pra entrar na brincadeira.


"é só isso o meu baião... tem mais nada não"...

30 Janeiro, 2009


ACORDO ORTOGRÁFICO

Vamos (re)começar colocando os pingos nos is. Ou tirando os pingos dos us. Porque o trema caiu, foi extinto e não precisa ser mais usado.

É, o Acordo Ortográfico já está em vigor e não adianta espernear. O negócio é ir, aos poucos, assimilando as (poucas) mudanças. Não é uma obra épica, não vai exigir nenhum esforço heróico... ops... heroico, sem o acento, ainda que o computador sublinhe de vermelho.

Outro dia encontrei-me com um amigo também professor de português que reclamava, justamente aliás, contra as mudanças. De fato, o ideal é que a ortografia permaneça o mais imutável possível, que não sofra variações. A grafia – não a língua! Grafia é apenas a representação da língua por símbolos gráficos. A língua muda todos os dias, não para (sem o acento, ok) e não possui “donos”. Dono da língua é o povo, o falante. O conceito de “erro” relativamente à língua é inadequado. Já a grafia, essa possui regras (muitas vezes arbitrárias e incoerentes, é bem verdade) e devem (ou deveriam!) ser obedecidas pelos usuários da modalidade escrita.

E o Acordo que ora se discute tem uma boa razão política que não cabe debater aqui (é assunto pra mais espaço, pois envolvem argumentos bons de quem é favorável e de quem é contrário).

Ou seja: vamos aprender a escrever ideia sem o acento, linguiça sem o trema, autoescola junto e micro-ondas separado. Não precisa ter pressa, vá se acostumando aos poucos e, sem sofrimento, você vai assimilar as regras. Algumas, confesse, você já não praticava antes. Então. É só continuar.

A primeira sugestão pra começar a assimilar as regras, é educar o seu computador a elas. Abra uma página de word, vá em Ferramentas, Opções de Auto-correção e elimine aquelas que não valem mais (linguiça costuma estar lá).

No mais, é rir, como na charge abaixo, de Jean.

21 Janeiro, 2009

DE VOLTA AO BATENTE!

OLHA SÓ! POR UM DESSES FELIZES ACASOS, CONSEGUI "ABRIR" NOVAMENTE MEU BLOG. EU PENSAVA QUE HAVIA PERDIDO O ACESSO PERMANENTEMENTE, MAS, COMO PODEM PERCEBER MEUS TRÊS LEITORES, EU ESTAVA ENGANADO.

VOU ATUALIZAR E PUBLICAR AS COISAS QUE ESTAVAM NA GAVETA.

ENTÃO, MÃOS À OBRA!