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08 maio, 2010

"Confissão" é um conto do mineiro Luiz Vilela, todo estruturado em diálogo. Vale a pena e refletir um pouco sobre seu conteúdo. Que Cristo "nos" perdoe!

CONFISSÃO

Luiz Vilela

– Conte os seus pecados, meu filho.
– Eu pequei pela vista...
– Sim...

– Eu...
– Não tenha receio, meu filho; não sou eu quem está te escutando, mas Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, que está aqui presente, pronto a perdoar aqueles que vêm a Ele de coração arrependido. E então...
– Eu vi minha vizinha... sem roupa...
– Completamente?
– Parte...
– Qual parte, meu filho?
– Para cima da cintura...
– Sim. Ela estava sem nada por cima?
– É...
– Qual a idade dela? Ela já é moça
– É...
– Como aconteceu?
– Como?...
– Digo: como foi que você a viu assim? Foi ela quem provocou?
– Não: ela estava deitada; dormindo...
– Dormindo?
– É...
– Quer dizer que ela não te viu?
– Não...
– Ela não estava só fingindo?
– Acho que não...
– Acha?
– Ela estava dormindo...
– A porta estava aberta ou foi pela fechadura que você viu?
– A porta; estava aberta... Só um pouco...
– Teria sido de propósito que ela deixou assim? Ou...
– Não sei...
– Ela costuma deitar assim?
– Não sei...
– Quanto tempo você ficou olhando?
– Alguns minutos...
– Havia mais alguém no quarto ou com você?
– Não...
– Você sabia que ela estava assim e foi ver, ou foi por um acaso?
– Por um acaso...
– E o que você fez? Você não pensou em sair dali?
– Não...
– Nem pensou?
– Não sei... Eu...
– Não tenha receio, meu filho; um coração puro não deve ocultar nada a Deus. Ele, em sua infinita bondade e sabedoria, saberá nos compreender e perdoar.
– Eu queria continuar olhando...
– Sim.
– Era como se eu estivesse enfeitiçado...
– O feitiço do demônio. O demônio torna o pecado mais atraente para cativar as almas e levá-las à perdição. Era o demônio que estava ali, no quarto, no corpo da moça, meu filho.
– Na hora eu não pensei que era pecado; eu fiquei olhando feito a gente fica quando vê pela primeira vez uma coisa bonita... Depois é que eu pensei...
– É uma manobra do demônio: ele queria que você ficasse olhando, para conquistar seu coração; por isso é que você não sentiu que estava pecando. Ele faz o pecado parecer que não é pecado e a gente pecar sem perceber que está pecando. O demônio é muito astuto.

– Depois me arrependi e rezei um ato de contrição...
– Sim. E que mais?... Foi essa a primeira vez ou já houve outras, antes dessa?
– Mais ou menos...
– Mais ou menos?... Você quer dizer que...
– É que...
– Pode dizer, meu filho, não tenha receio.
– Uma vez...
– Essa mesma moça?
– É... Ela estava de camisola; uma camisola meio transparente...
– De tal modo que permitisse enxergar a nudez?
– É...
– A nudez completa?
– Não: como agora...
– Sim. Foi em casa que você a viu assim?
– Foi.
– Ela estava só?
– Estava...
– E os pais dela?
– Eles estavam viajando...
– Os pais dela viajam muito, não viajam?
– Viajam...
– Sim, eu sei; quer dizer...
– Eu tinha ido lá, buscar um livro; ela estava no quarto e me chamou...
– Ela não procurou cobrir-se com mais alguma coisa?
– Não...
– E ela não se envergonhou de estar assim/
– Não... Eu procurei desviar os olhos, mas ela mesma não estava se importando. Procurei sair logo dali, mas era como se alguma coisa me segurasse; parecia que eu estava fincado no chão...
– E ela? O que ela fez? Ela conversou com você?
– Conversou...
– De que tipo a conversa?
– Normal...
– Ela não falou alguma coisa incoveniente?
– Não... Mas o jeito dela olhar, o jeito que ela estava sentada...
– Sim. Que jeito? Uma posição indecorosa?
– É... Mostrando as pernas...
– Entendo. E o olhar? Havia alguma imoralidade nele, alguma provocação?
– Havia...
– Sei.
– Mas eu arranjei uma desculpa e fui embora...
– Fez muito bem, meu filho; é isso mesmo que você devia ter feito. Você pensou na gravidade da situação? Isto é: que se você tivesse ficado, pecado poderia ter sido muito mais grave?
– Pensei...
– Não era isso o que estava no olhar dela?
– Isso?...
– A promessa desse pecado grave.
– Era...
– Ou era apenas uma simples provocação? Quer dizer, você acha que ela estava disposta a te levar a pecar com ela – entende o que eu estou dizendo, não? – ou ela estava simplesmente te provocando, sem outras intenções?
– Não...
– Não o quê? Ela queria pecar?
– É...
– Você imaginou isso ou as atitudes dela mostravam?
– As atitudes dela...
– Mas a família dela não é de bons costumes, não é muito católica?
– É...
– E você acha que ela faria isso? Você não...
– Já escutei Mamãe dizendo que ela não procede bem... Que ela não é mais moça...
– Entendo. Só sua mãe ou outras pessoas também dizem...?
– Só escutei Mamãe. Ela não gosta que eu vá lá...
– Sei... Faz muito bem; sua mãe está zelando pela sua alma. Foi muitos dias antes da segunda vez que aconteceu isso ou foi perto? Isso que você está me contando...
– Perto...
– Esses dias?
– É...
– Quer dizer que os pais dela ainda não voltaram?
– Não...
– Eles geralmente ficam muito tempo fora?
– Ficam...
– E ela fica sozinha?
– Fica com a empregada...
– E o irmão dela? Quer dizer, ela deve ter um irmão, não tem?
– Tem, mas ele fica quase todo o tempo na fazenda; ele só vem à cidade domingo...
– Sim, sim. Muito bem. Quer dizer... É... E que mais, meu filho? Outros pecados?
– Não, só esse...
– Pois vamos pedir perdão a Deus e à Virgem Santíssima pelos pecados cometidos e implorar a graça de um arrependimento sincero e de numa mais tornarmos a ofender o coração do seu Divino Filho, que padeceu e morreu na cruz por nossos pecados e para a nossa salvação. Ato de contrição.

(VILELA, Luiz. Tremor de terra. São Paulo: Publifolha, 2003, p. 7-11)

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