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07 fevereiro, 2008

SÃO BERNARDO: A CONSCIÊNCIA ATORMENTADA

Os alunos que vão prestar o vestibular da UFMG em 2009 terão a oportunidade de ler um dos mais belos livros da literatura brasileira: o romance São Bernardo, de Graciliano Ramos.

Principal nome da prosa brasileira dos anos 1930, Graciliano Ramos é considerado um mestre no uso da linguagem. Com seu estilo seco e econômico, o autor revigora elementos do melhor realismo do século XIX e apresenta de modo objetivo um mundo extremamente duro habitado por homens rudes. Na prosa de Graciliano, não há espaço para laivos sentimentais e seus personagens são apresentados quase que somente através do recurso da substantivação: não há espaços para os adjetivos e advérbios. Esta linguagem curta, direta e bruta dá, ao enredo de São Bernardo, levou Antônio Cândido a perceber sua “unidade violenta”.

Narrado em primeira pessoa (narrador personagem), São Bernardo é dividido em 36 capítulos. O lugar dos acontecimentos é a fazenda São Bernardo, situada no município de Viçosa, no interior de Alagoas. O tempo, os conturbados anos 1930.

O protagonista e narrador do romance é Paulo Honório, um homem que nasce pobre, mas experimenta uma ascensão social que o colocará acima de todos a sua volta. Nesta trajetória ascendente, ele se valerá da violência e da intimidação para conquistar seu principal objetivo: ser o proprietário da fazenda São Bernardo. Depois de conquistar o que queria – e com ela adquirir prestígio e fortuna –, Paulo Honório desejará casar-se. E isto ocorrerá quando ele encontra Madalena, uma professora de origem pobre, que vivia com a tia. A forma como empreende seu casamento é semelhante àquela usada na conquista de São Bernardo: objetividade, dinamismo, rapidez nas decisões.

Após o casamento, porém, a convivência com Madalena revelará um Paulo Honório incapaz de dividir o que possui e de sensibilizar-se com as pessoas que viviam a sua volta. Acostumado a tratar tudo e todos como força de trabalho e a estender ao humano o sentimento de propriedade que o dominava, Paulo Honório não aceitará ver sua própria esposa ‘desperdiçando’ dinheiro e tempo com os empregados. O casamento se transforma num tormento para ambos. Nem o nascimento do filho será capaz de reaproximá-los. As diferenças ideológicas em relação à esposa (para Honório, Madalena era ‘materialista e comunista’) acabam por desencadear uma forte crise de ciúme. O inferno que o narrador experimenta no auge da crise é um dos pontos altos do livro.

O leitor deve ficar atento ao ritmo da narrativa. Mestre do romance, Graciliano Ramos demonstra em São Bernardo um profundo domínio das técnicas narrativas: o ritmo que se acelera ou desacelera revela muito sobre a constituição de Paulo Honório, através do qual o autor leva seus leitores à análise progressiva da alma humana. Além disso, o livro vai muito além do que se apresenta à superfície do texto. Vários críticos já chamaram a atenção para a representação da luta de classes e a metáfora da “construção de um burguês”, observada por Carlos Nelson Coutinho.

Muitas vezes comparado ao Dom Casmurro, de Machado de Assis, com o qual, de fato, possui várias semelhanças, São Bernardo é ainda um romance que permite reflexões sobre metalinguagem: repare o leitor que, nos dois primeiros capítulos, o narrador apresenta seu projeto de produção de um livro.

Em 1972, Leon Hirszman roteirizou e dirigiu um filme homônimo. Num elenco que conta com Jofre Soares, Mário Lago e Isabel Ribeiro, entre outros, coube a Othon Bastos viver o fazendeiro Paulo Honório. A trilha sonora é de Caetano Veloso.

Boa leitura para todos.

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